domingo, 4 de janeiro de 2009

Quem quer casar com a carochinha?

O meu último Domingo de 2008 foi passado num evento assaz bizarro, para os standards ocidentais. Mesmo com invenções esquisitas como speed dating, agências de encontros e entre outras, os indianos conseguem bater-nos aos pontos no que diz respeito a arranjar casamento.
No fim de semana passado, foi dia de Pasadangi Mela, um festival organizado pela ONG onde estou a trabalhar, no qual as pessoas possitivas de todo o Gujarat se podiam inscrever para encontrar a sua alma gémea. A promessa era essa. Na manhã do dia 28, começaram a chegar os autocarros ao local do envento, onde tinha sido montada uma tenda enorme, com um palco forrado a carpete vermelha. Depois do pequeno almoço e dos discursos da praxe, começou o desfile dos candidatos e candidatas, que se dirigiam ao palco quando o seu número era chamado pelos apresentadores. Ali ficavam, embaraçados, frente à audiência, durante os poucos minutos que demorava a ler o seu perfil, que continha os seguintes dados pessoas: nome, distrito de residência, estado civil, casta, cor da pele, religião, nível de escolaridade, rendimento, data de diagnóstico (HIV), tratamento antiretroviral.
À hora do almoço, ao mesmo tempo que se mastigava o daal e chapati, começava o prometido Processo de Seleção da Alma-gémea (nome oficial impresso no programa). Os participantes dirigiam-se aos mediadores (elementos da organização) e diziam os números que lhes tinham interessado. Os mediadores chamavam essas pessoas e davam-lhes a referêcia do “Romeu”, para que pudessem consultar o seu perfil e manifestar o seu interesse ou falta dele. Se ambas as partes estivessem de acordo, dirigiam-se a umas salas onde, na presença de um conselheiro, podiam falar durante uns breves minutos.
Foi curioso observar o evoluir da tarde. Os níveis de exigência que no início do “Processo de Selecção da Alma-gémea” eram elevadíssimos, foram-se alterando com o acumular das rejeições por parte de alguns candidatos. Ou talvez fosse a timidez inicial que finalmente ia sendo ultrapassada. A verdade é que ao final da tarde, foi um acumular de meninas, com as mãos cheias de números, referência dos seus pretendentes, a folhear as capas com o perfil e a foto tipo passe dos candidatos. Os mais persistentes e corajosos, ou desesperados, no fim do dia, apresentaram-se à frente da plateia, enquanto a apresentadora perguntava se não havia ninguem que estivesse interessada neles. Não havia.
Para quem procura o lado positivo das coisas, esta foi uma oportunidade de dar poder às mulheres que, desta forma, conseguem ter voz activa na escolha dos seus parceiros. No fim do dia, 5 casais decidiram casar-se.

9 comentários:

fernandesmariateresa disse...

Olá Tété,
Esse teu domingo foi relmente invulgar.É um povo pacifico e vai tentando resolver os problemas como podem, isto é o que eu penso.
Continua a mandar noticias e quero ver as fotos de t/casa.
Bjinhossssssssssssssssssssssssssssssss e saudadesssssssssssssssssssssssssssssssssssssssss

Liseta disse...

Delicio-me com a leitura das histórias do teu quotidiano!!!!

É verdade, tcharan: estou, finalmente, a dar notícias!!!!

Que bom, estares a passar toda esta experiência... ai que ganda inveja ;)

beijocas e um ano de 2009 melhor que o anterior.

Manuela disse...

Olá! Fantástica essa experiência. Mas o que mais admiro nela é a verdade e frontalidade com que eles tentam resolver (ou evitar) um problema que aqui no ocidente se pretende que não existe e que é a dificuldade que as pessoas, mulheres e homens, têm de arranjar parceiros ou sequer amigos, nos dias de hoje. Nós preferimos rir desse tipo de 'coisas', manter a nossa compostura e ficar...orgulhosamente sós!
:-))
Enfim, não há dúvida que a simplicidade, humildade e o não julgamento aumentam grandemente o brilho que brota do nosso interior e faz-nos mais belos...

Adoro as tuas crónicas. Como posso saber mais sobre a ONG que te levou até aí? Tens um site?

Beijinhos de Luz!

M.

Ana Celeste Ferreira disse...

Que máximo... Tu és um fenómeno...
Já sou seguidora das tuas fenominices!

Beijos internacionais*

Teresa Calisto disse...

Liseta: Welcome! Ja estava a estranhar a tua ausencia.

Manuela: E verdade que estas iniciativas tem como principal objectivo combater o isolamento e depressao que muitas vezes afecta as pessoas quando sao diagnosticadas com HIV. No entanto, ainda me parece um modo demasiado forcado de criar lacos entre pessoas que nao se conhecem, nem se podem conhecer numa conversa de 5 minutos. A estrutura do festival reflecte um pouco o sistema dos casamentos arranjados. Muitas das raparigas indianas com quem falo, nao parecem manifestamente contra a tradicao dos seus pais encontrarem o seu marido, mas antes contra o facto de terem que tomar uma decisao que afectara as suas vidas, com base numa conversa de 5 minutos, com um rapaz que nao conheceram antes.

A organizacao que me trouxe ate aqui chama-se VSO, Volunteer Service Overseas www.vso.org.uk E recruta voluntarios de todos os paises, idades e areas profissionais.

Obrigada a todas pelos vossos comentarios. Como ja disse antes, sabem a mel!

Pedro disse...

Olá!
Isto quando se repete?
Tens que avisar porque é a minha oportunidade de me internacionalizar! Beijinhos!

Chá de Tília disse...

Confesso que gostava de não ter tido o trabalho de escolher os maridos… e seguramente que a minha família os teria escolhido com mais intere$$e ;)))
É só pelo facto de o marido que escolhi não ter intere$$e nenhum é que não tenho dúvidas que casei por amor… numa próxima oportunidade só casarei com alguém que tenha mesmo muito mas muito intere$$e ;)))))
A condição de se ser mulher, em muitos locais do mundo, é terrível e de difícil compreensão… e confirma que quando se evocam “questões culturais” essas “condições culturais” são na sua esmagadora maioria contra os reais interesses da mulher enquanto ser humano.
Beijos

Alice disse...

ola kida

mandei-te um email mas vim agora ao
teu blog e so escrevo duas linhas para te dizer que achei fantasstica
"quem qur casar com a carochinha".
Escreves muitissimo bem e as descricoes sao giras.Parabens.
Beijinhos
Auntie Alice

Queiroz disse...

Olá Teresa:
Que fascinante descrição deste curioso ritual.
No ocidente mediatiza-se tudo...é a Web que procura e encontra...
O "indiana way" não deixa de ter as suas vantagens ou amarguras.
Beijo e realização na tua missão.
Queiroz

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