quinta-feira, 29 de janeiro de 2009

Prenda d' Anos

Ontem tive direito a mais um pedacinho da verdadeira India, que não se revela a turistas nem a visitantes ocasionais, mas apenas a quem tira o tempo para viver aqui. Fui a casa da explicadora de Inglês dos meus vizinhos. Depois de um dia chato no escritório, que me deixou exasperada e cheia de dores de cabeça, caminhamos juntas até sua casa. Pelo caminho eu já estava a explicar como me sentia cansada, a antecipar que podia usar esse pretexto como uma boa desculpa para me vir embora cedo. Caminhamos por umas ruelas e entramos numa casa que pessoas menos bem intencionadas poderiam chamar de barraca. Mas no momento em que transpus a soleira da porta, senti-me em casa. Não consigo explicar. Há lugares que nos afectam assim. Foi uma combinação da iluminação, com as caras das pessoas, as almofadas em cima das camas, os tijolos desirmanados no chão, as traves de madeira... Fez-me lembrar algumas casas das aldeias portuguesas que vão sendo aumentadas conforme a necessidade dos seus habitantes e consoante os materiais disponíveis, sem grandes preocupações estéticas. O irmão mais novo da Explicadora fazia anos. A festa limitou-se a ele receber um pouco mais de comida que os outros. Não houve prendas. Aliás ele é que ofereceu rebuçados aos anciãos da família. E a mim.

Naquela casa com uma só divisão, vivem 5 pessoas. Começo a perceber como é impossivel ter a noção do que é a privacidade que tanto prezamos no ocidente, quando se vive neste ambiente. A mãe, uma mulher sorridente num sari vermelho escuro, não saiu do canto onde está montada a cozinha. Com um fundo de prateleiras cheias de recipientes de alumínio, preparou-nos o lanche e o jantar, sempre com um sorriso nos lábios e sempre em amena conversa. O pai, que chegou uns minutos mais tarde, é um senhor com cabelo grisalho e pele clara, com muitas perguntas e um olhar vivo e interessado. A Explicadora diz que ele é meio médico, porque apesar de não ter uma licenciatura em medicina, tem muitos conhecimentos sobre o corpo humano e está sempre a distribuir conselhos sobre os benefícios do chá preto com gengibre para limpar o organismo, ou os malefícios das posturas erradas ao sentar.

Antes do jantar, fui dar uma volta com a Vandana (a Explicadora) e o Aniversariante. O cansaço já tinha desaparecido completamente e eu usava um sorriso rasgado na minha cara enquanto caminhávamos pelas ruas, que ficam tão perto de minha casa, mas que ainda não me tinha aventurado a explorar sozinha. Fomos a um templo, que fica no jardim de um edifício ainda em construção. O templo é uma sala ampla, em madeira, com umas estátuas muito coloridas no centro e várias fotografias em tamanho grande do santo. Ficamos apenas uns minutos e decidimos caminhar até outro templo, mais elaborado, escondido numa ruela que termina no rio. Este tem uma primeira pequena sala rectangular, com a estátua de uma vaca no centro com cerca de um metro de altura. Segue-se uma salinha circular, com o tecto cheio de desenhos de deuses, feitos a partir de pedacinhos multi-coloridos de um material brilhante. Na direcção do olhar da vaca está uma perquena abertura quadrada na parede. Para passarmos por aí, temos que nos dobrar pela cintura e entramos numa outra pequena câmara circular, onde três homens vestidos à ocidental entoam uns cânticos, enquanto colocam flores num tabuleiro que está suspenso no centro da câmara. Há velas acesas e consigo ver que a minha presença é no mínimo estranha, mas não o suficiente para quebrar a concentração dos zeladores do templo. Saimos por uma porta lateral e depois de darmos alguns passos no exterior, de dentro do templo vem um ruído imenso de tambores e pratos metálicos. É a música das orações, explicam-me. Uma cadela à entrada, começa a uivar. E estou eu, com os meus dois acompanhantes, a olhar a escuridão do rio, com esta fantástica e muito apropriada banda sonora.

Regressamos para jantar e sinto mesmo conforto quando voltamos a entrar em casa. Quando me despeço, já perto das 21h30, tenho pena de não poder dar um abraço à mãe. Numa cultura na qual não somos fluentes, nunca temos a certeza se conseguimos expressar a gratidão que efectivamente sentimos em alguns momentos. Os meus dois guias, acompanham-me a casa e acho que a Vandana consegue perceber a minha alegria pelo sorriso que tenho, tão diferente da má disposição do início da tarde. Dou os parabéns mais uma vez ao irmão, que me diz que gostou muito dos anos dele. Pelos vistos a minha presença foi uma prenda que deixou um rapaz de 17 anos feliz. Beat that, Play Station!

4 comentários:

Helena Almeida disse...

Goi!!
Parece-me que o miúdo fez anos, mas tu é que recebeste a prenda:)
Fico muito contente por saber que há alguém que pode partilhar contigo o dia a dia... o crescimento dessa amizade pode suavizar as naturais saudades de casa.
BEIJOS!!

Alice disse...

Querida sobrinha

Leio religiosamente o teu blog e,sem querer repetir-me, acho as tuas descricoes fantasticas.Estas num paiz de estranhos habitos e costumes,mas consegues ver o lado bom
das coisas.O dinner party ate me fez
rebolar osolhos.Men first!
Beijocas

Auntie Alice

Anónimo disse...

Fico feliz ao saber que arranjaste uma nova amiga. Desfruta e se te apetecer dar um abraço dá e explica que é a tua forma de exprimir agradecimento. Mas tu sabes melhor que ninguem como deves reagir.
MILHÕES DE BEIJOSSSSSSSSSSSSSS

Queiroz disse...

Adorei essa exploração do crepúsculo, da noite e dos lugares. Pelas tuas palavras visualizam-se os pormenores e até fica um suspenso no ar.
É bom saber que podemos ser uma prenda para alguém!
Beijos e muitos aniversariantes!

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