sexta-feira, 12 de junho de 2009

Let's talk about sex... again.

Quando é que do exotismo dos extremos passamos à crueza da hipocrisia? Esta questão ficou no ar ontem, quando depois do trabalho, fui com dois colegas para um jardim conversar. Coscuvilhar, será um termo mais verdadeiro, mas que no meio de tanta diferença perde a mesquinhez e ganha contornos de investigação antropológica.

Descobri, para meu espanto, que na organização onde trabalho, o assédio sexual é prática comum de alguns coordenadores e do conhecimento geral. A presidente (que perdeu o P grande) nada pode fazer contra esta realidade, porque quem assedia tem provas do envolvimento dela em casos de corrupção, de tamanho considerável. Os coordenadores de projecto, quase todos casados, envolvem-se uns com os outros, com o pessoal que trabalha no terreno, aos pares e aos múltiplos, no escritório, em casa e nos workshops. E toda a gente ao nível dos distritos sabe o que se passa (a minha organização funciona a nível estatal e é suposto construir a capacidade das redes mais pequenas distritais, na prestação de serviços à comunidade seropositiva local). Uma série de problemas que "diagnostiquei" no meu trabalho de análise da comunicação da ong, encontram explicação nos casos amorosos, que seguem a lógica das telenovelas. Claro que é difícil conseguir respeito com este comportamento. Muito menos conseguir um trabalho bem feito.

Pelos vistos, a minha organização é um microcosmos do que se passa no resto da cidade e, quem sabe, no resto do país. Muitas vezes já aqui afirmei que esta minha experiência me permite ter um conhecimento dos hábitos locais que escapa a qualquer turista. Mas é preciso nem sei bem o quê para conseguir lidar com informações destas. Não quero parecer moralista, mas quando a promiscuidade se torna em mais uma faceta de um emprego, quando afecta o profissionalismo de uma organiação que diz que quer melhorar, quando se tapa o sol com a peneira, identificando problemas para a raiz dos quais não se quer olhar, aí tenho que bater com o pé no chão, pôr a mão na anca e cara séria e dizer: "Então, como é que é...?"

Quando depois desta conversa, e depois de recuperar do choque, falava com a Z. sobre como as sociedades mudam e como na Índia as coisas, eventualmente, também irão mudar, diz ela "Aqui a única coisa que evolui é o lado negro." E explicou: antigamente, este tipo de comportamento era apenas privilégio dos muito ricos, reis e grandes proprietários. Agora toda a gente dorme com toda a gente, enquanto mantêm uma capa exterior de recato e de púdicícia. Sexo com a mulher do vizinho, no problem. Mostrar o ombro na rua, é que não.

5 comentários:

Mais um Lugar de Mim disse...

Olá Teresa,

Obrigada pela passagem pelo meu blog. Espreite por lá hoje. Perceberá porquê.

http://deixaentrarosol.blogspot.com/2009/06/vida-inspira-me_12.html

Um beijinho com admiração

Vagamundos disse...

É muita hipocrisia. É preciso coragem e ter a cabeça no sitio para "denunciar" este tipo de paradoxo comportamental.
bjs

Carlos Oliveira disse...

Teresa
Olá,
Infelizmente o mundo move-se pelo assédio, corrupção e incompetência política e "nós" fingimos não ver.
Bem haja por fazer parte dos que não fecham os olhos.
Beijo,
Carlos

Aurora - Ló disse...

OLÁ SURATEREZINHA !!!!!

TÁS QUASE A NASCER !!!!!

BEIJOS E ABRAÇOS DO TAMANHO DO MUNDO .... DE TODA A FAMILIA E AMIGOS...

Queiroz disse...

Grande coragem...numa teia nem sempre entendível e muito menos transparente!
Um beijinho de coragem!

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