terça-feira, 19 de maio de 2009

Casamento N.º 4

Na passada 6ª-feira cheguei a casa e deparei-me com a porta do prédio barrada por um grupo de pessoas em volta de uns 4 homens que tocavam violentamente nuns tambores. A época dos casamento tinha voltado e desta vez veio procurar-me ao meu prédio.




Depois de ter conseguido entrar por um buraco que tinha sido aberto de propósito para a ocasião no muro exterior, as minhas vizinhas do 3º andar, encurralaram-me nas escadas e lá me explicaram que o convite que eu tinha recebido há umas semanas e que estava completamente escrito em Gujarati, com excepção do meu nome, era para o casamento do filho da Mudhaben, no dia seguinte, às 13h30. Depois de muito atropelo de ingles e gujarati lá me explicaram que o casamento era no rés do chão. O que até calhava bem porque no dia seguinte, eu e a minha colega estavamos novamente em prisão domiciliaria porque iam ser anunciados os resultados das eleições (Nota: o primeiro ministro conseguiu o feito histórico de ser reeleito após ter completado um mandato, o que já não acontecia há 48 anos).

O convite

No dia seguinte, à hora marcada, estavamos prontas e o prédio num silêncio nada habitual. Uns momentos depois, vieram os familiares do noivo convidar-nos para tomar chá em casa da mãe e para tirar uma fotografia com o rapaz, que mais parecia um marajá. Foi a primeira vez, nesta minha longa experiência com casamentos indianos, que me vi do lado do noivo, e deixem-me que vos diga que nesta latitude ele é o rei da festa. A rapariga é apenas um acessório para enfeitar. Literalmente.

Os casamentos indianos, são um conjunto de cerimónias que se arrastam por dias e que envolve uma serie de actos simbólicos, como a oferta de notas ao noivo, que as segura numa bandeja com as duas mãos, ou o despejar de grãos na cabeça do rapaz, coberto com um pano e rodeado por mulheres que cantam. No dia C, uma carruagem puvada por dois cavalos brancos, espera o rei do dia, para o levar num cortejo através da cidade, até ao salão onde decorrerá a cerimónia.



Eu fazia parte do cortejo (lá se foi a reclusão) e como branca que sou tive lugar de honra atrás do coche. Os homens, que seguem à frente da carruagem, vão parando ao longo do percurso para dançar, debaixo do sol escaldante do meio da tarde, ao som de músicas de bollywood, numa dança que é um misto de ataque epilético com os braços esticados no ar e dedo indicador espetado, com convulsões de ombros, anca e cabeça. Desengane-se quem espera exotismos de dança dos véus ou do ventre.










Umas horas depois chegamos ao salão da festa e é altura de nos sentarmos na plateia para ver mais uma série de rituais, os derradeiros, que terminam com a noiva agarrada aos seus familiares a chorar baba e ranho. Estas lágrimas, que neste caso me pareceram mais cerimoniais que sinceras, acontecem porque na Índia a rapariga é suposto abandonar a sua familia e tomar a do seu marido como sua. Há casos em aldeias remotas, onde as filhas abandonam a sua família para nunca mais a tornar a ver.

Terminada a cerimónia, volta-se a casa do noivo para comida de casamento que estava a ser preparada desde a véspera. Mas sol indiano de meio da tarde não é para esta mulher branca, que ficou de rastos com a caminhada e teve que ir para casa, fechar a porta, preparar uma comidinha ocidental e dar graças aos deuses por não ter nascido neste lado do mundo.




A mãe do noivo, a transbordar de orgulho.

6 comentários:

Anónimo disse...

Olá querida, ainda não tinhas ido a um casamento desse lado do mundo, pois não? Fica a experiência. Gostei de ver as fotos vi uma senhora de que me lembro bem . Bejinhos

Vagamundos disse...

Estamos a ver que os casamentos por esses lados são um verdadeiro filme indiano. Gostamos de ler e ver o retrato.
Coragem com o picante!
Beijinhos

eduardo disse...

Mais um dia... mais uma aventura... mais uum csaamento. As tradições desse lado do mundo mantém-se, ao contrário deste Portugal onde as formas das pessoas se casarem são cada vez mais estranhas. "Cada cabeça sua sentença", diz o povo

Aurora - Ló disse...

Adorava ver-te atrás do coche com o teu sari a brilhar. Mas com sari ou sem sari, tu brilhas de qualquer maneira. Beijos grandes e abraços apertados

Queiroz disse...

Já a perseguir noivos? Ou será que este era mesmo especial? Fiquei com curiosidade para ver os restantes casamentos!
A descrição é soberba, como de costume!

tébastos disse...

Olá drª Teresa. Eu tenho o mesmo nome, trabalho onde trabalhava (Prelada, sou enfermeira), e amiga do Bruno. Gosto de vir aqui dar uma espreitada desde que a Enf. Ana Isabel me falou do blog. Continue a viver a experiência de forma intensa e de completa entrega e partilha connosco. Até breve
Um beijinho
Teresa Bastos

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