terça-feira, 3 de março de 2009

Slumdog Crorepati ou O Milionário da Favela

Depois ter recebido muitos mails a pedir a reacção in loco dos indianos ao super oscarizado Slumdog Milionaire, aqui está toda a verdade sobre o filme, as reacções e a apatia, desde Surat.

Num país com a dimensão da Índia, as reacções a um filme são tão variadas como seria a reacção de polacos e portugueses ao último trabalho do Joaquim Leitão. Sei que nas grandes cidades e particularmente em Bombaim, os ânimos foram bastante exaltados com o SM e toda a atenção mediática que recebeu. No entanto, numa "pequena" cidade, quase da província, como Surat, nenhum dos seus 4 milhões de habitantes foi gritar para a rua quando os vencedores dos oscares foram anunciados em Los Angeles.

Há uns dias atrás fui com três colegas de trabalho ver o filme. Uma sessão a meio da semana, perto das 20h00. A sala estava bem composta, tendo em conta que era um auditório do tamanho das salas grandes da Lusomudo. Para minha surpresa, antes do filme começar, mal terminam os anúncios, toda a gente se levanta das cadeiras. Começa então no grande ecrã, um vídeo clip do hino nacional indiano, com um grupo de cantores acima dos 50, de cabelos ao vento e testa franzida, a cantar emocionado Bharat, oh Bharat, que é como quem diz "Índia, ó India". Terminada a demonstração de fervoroso nacionalismo, sentam-se os espectadores, apagam-se as luzes e começa a película. Devo confessar que gostei bastante, apesar de estar a ver a versão hindi do filme. Mas como tinha lido o livro antes, consegui seguir bem a história (aconselho vivamente a leitura do livro que em inglês se chama Q&A e é de Vikas Swarup, um autor do Gujarat. Esse sim, é um verdadeiro soco no estômago, mais forte ainda que as imagens das favelas do filme).

Quando saímos do cinema, e porque não notei nenhum burburinho fora do normal por parte dos outros espectadores, perguntei aos meus colegas o que tinham eles achado do filme e que celeumas tinha ele causado. A primeira coisa de que se lembraram foi da reacção adversa do verdadeiro apresentador do Quem Quer Ser Milionário indiano. O senhor não gostou do modo como foi retratado no filme, particularmente das tentativas de manipulação do concorrente.

Nos jornais, as reacções dividem-se no que toca à exibição da pobreza. Algumas pessoas acham que mostrar as favelas indianas num filme, equivale a lavar a roupa suja em público. A vergonha nacional deve ficar dentro de fronteiras e ser lidada pelos indianos (estratégias para resolver o problema, ninguém as apresenta, nem tão pouco expressam revolta contra a passividade do governo face à situação). Para o autor de uma das opiniões que li, a arte tem como principal objectivo "elevar a alma" e isso não se consegue com imagens chocantes de crianças cobertas de fezes e a dormir em barracos. Do outro lado da linha, estão opiniões como as dos meus colegas. É verdade que ver a pobreza extrema exibida num ecrã tão grande e a ter projecção internacional não é motivo de orgulho. Mas o filme retrata uma realidade que existe e contra a qual nada está a ser feito É apenas uma fotografia da Índia real. A vergonha deve estar no facto das favelas existirem e não na divulgação internacional do problema.

Os jornais ainda vão trazendo algumas pérolas da famosa mentalidade indiana, que não sei se ache fascinante ou exasperante. Soube que as crianças que participaram no filme vão ter direito a uma casa cada uma (nada se menciona relativamente a educação, trabalhos para as família ou um plano mais holístico para resolver o problema dos milhões de pessoas que vivem abaixo do limiar da pobreza neste país). Notícia de primeira página do Times of India de ontem: um dos miúdos levou uma sonora bofetada do pai porque se recusou a falar com a imprensa. O miúdo estava cansado e por isso recusou uma entrevista, mas depois da eloquente argumentação do progenitor, veio a público dizer que percebia a reacção do pai e que ele (criança) estava era a ser preguiçoso. Contra actos não há argumentos.

5 comentários:

Jiboia disse...

É engraçado que muitos dos cidadãos dos países que servem de argumento a estes filmes fiquem magoados com a perspectiva do realizador.
Quanto a mim, que por experiência de vida poucas coisas destas me impressionam por já ter visto tantas, acho que o conteúdo fundamental do filme não é o "modus vivendi" das pessoas nos subúrbios de Mumbai (há centenas de locais assim por esse mundo fora) mas sim a mensagem que o filme transmite. Aceito que nem todos estejam de acordo ou que não tenham sensibilidade para o perceber, pois opiniões há muitas...

Sansoni7 disse...

Bela crónica....
Quem consegue ver lado a lado a miséria e a opulência, pode ser normal não querer mostrar o lado «menos bom da fita»....a pobreza extrema.

Deixo-lhe outro blog...

http://kartfun.blogspot.com/

Pronto...agora já savbe quem é o sansoni7

eduardo disse...

Confesso que ainda não tive tempo para ir ver o filme. Mas está na minha lista... claro que não se trata de uma Lista de Shindler. A tua visão sobre o filme fez com que tivesse uma visão mais abrangente de alguém que está no terreno.

Helena Almeida disse...

Goi!!
Também li no jornal esse incidente que descreves entre pai e filho. Sinceramente não fiquei muito surpreendida. Recordei uma reportagem transmitida há pouco tempo na TV sobre o Saúl... aquele miúdo que ficou famoso por imitar o Quim Barreiros.
Ora, tantos anos passados, o miúdo hoje homem cortou relações com os pais porque descobriu que lhe desviaram milhares dos antiguinhos contos. Na conta bancária tinha meia dúzia de euros e os pais não lhe deram nenhuma justificação... afirma o Saúl.
Quando há famílias inteiras a viver às custas de futebolistas, cantores e actores, não me surpreende que desse lado do mundo haja alguém que queira rentabilizar, perdão, partilhar o seu próprio filho com o público.
Esse miúdo há-de crescer... mas desconfio que quando tiver a idade do Saúl não deverá ter, sequer, uma conta bancária.
BEIJOS!!

Queiroz disse...

Gostei imenso da análise e das perspectivas locais acerca do filme/assunto.
A igualdade não deve ser esquecida como ideal humano,já que praticada pouco o é.
A justiça derivada da sorte ou de forças ou entidades exteriores ao homem, perde o seu verdadeiro sentido e o próprio homem sai desvalorizado.
O desenvolvimento a leste irá trazer mais filmes deste género, embora, infelizmente, duvide do verdadeiro impacto dos mesmos...

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