quinta-feira, 26 de fevereiro de 2009

Pormenores II

A lista de batidos, na gelataria da zona (os sarrabiscos à direita são os números que se utilizam por aqui)

No escritório não se entra de sapatos.

A minha vizinha Tchampa, quis comparar cores.

quarta-feira, 25 de fevereiro de 2009

O cúmulo da coerência

A drogaria da minha rua não vende spray mata baratas porque o dono segue o Swami Aran, que diz ser pecado matar qualquer criatura viva.

domingo, 22 de fevereiro de 2009

Na favela

O cenário vai mudando lentamente. Os prédios tornam-se mais raros e as casas começas a ter todas a mesma altura, alastrando-se por uma extensão que não consigo adivinhar. Reparo como o ambiente é muito diferente do que estava à espera. Não existe o morro, que os filmes e telenovelas brasileiros nos habituaram a ligar imediatamente à palavra “favela”. Os animais aqui são mais numerosos que nas outras partes da cidade. O chão é em terra batida e os rios de água duvidosa que o atravessam, são muito frequentes. Perguntamos pela N.bhen, presidente de uma ong local e que nos vai levar até às mulheres que cosem os apliques brilhantes nos saris. Indicam-nos uma ruela . Reparo que de ambos os lados da rua principal, existem várias ruas, cada uma mais estreita que a anterior. Estas desembocam noutras vielas e formam um labirinto. Aqui podemo-nos perder de mais que uma maneiras. Passamos por quatro rag pickers, mulheres e homens que recolhem do lixo retalhos que podem ter algum uso e os vendem. Já na ruela, desviamo-nos de duas cabras que tocam com as cabeças levemente uma na outra. Pelas portas abertas, vejo os habitantes da favela, que costuram, penteiam os filhos ou apenas esperam. Por quê, ainda não sei. Talvez nunca venha a saber. Acho que terei muita sorte, se assim for.

Como em todo o lado, a visitante branca é motivo de curiosidade. Já depois de encontrarmos quem procuramos, enquanto nos dirigimos às casas das mulheres que se ocupam da costura dos saris, o nosso grupo vai engrossando lentamente, com mais mulheres e crianças que querem saber quem sou, para onde vou e que faço aqui. Não sinto presenças ameaçadoras e sempre que cruzo o olhar com alguém que não o desvia, a sua cara abre-se num sorriso. Vamos encontrando as mulheres e o cenário parece feito para um filme. No meio das moscas que aqui são mais que muitas, das crianças semi-nuas que assomam às portas, das cabras, das vacas, das galinhas e garnizés, do lixo, da água, dos esgotos e de mais lixo, surgem pendurados de fios que não vejo, enormes panos coloridos. Rosa forte, verde alface, azulão. São estes saris que permitem que as mulheres engrossem o esquelético salário mensal que têm para viver. Explicam-me que os maridos trabalham, mas muitos são alcoólicos e o dinheiro vai para aí. Por cada sari em que trabalham ganham entre 1 e 6 rupias. Num dia conseguem terminar cerca de 15. Nos seus tempos livres. Depois do trabalho fora e dentro de casa. O dinheiro que ganham, é mantido pelo ong num programa de poupanças, permitindo que estas mulheres controlem pelo menos parte do que vão ganhando. Os saris chegam ali como simples panos e saem enriquecidos por lantejolas douradas. A favela exporta beleza.

Havia muito para fotografar. Muitas imagens pobres e belas. Talvez chocantes. Mas para sacar de uma máquina fotográfica no meio de quem sendo tão diferente, tão bem nos recebe, requer muita coragem ou muito descaramento. E eu estou desprovida de ambos.

sexta-feira, 20 de fevereiro de 2009

Casamento n.º3

No dia a seguir ao casório dos desfiles no palco, estou no escritório com os meus colegas, a partilhar um almoço no chão da sala de reuniões, quando ouço um ruído insuportável no exterior. Parece uma série de tiros. Pelo ar descontraído dos meus colegas e pela música que uns minutos antes tinha começado a berrar lá fora, percebo que deve ser mais um casamento. Eu sei que já disse que por aqui o dia a dia é bastante ruidoso. Agora imaginem como são as festas. Portanto, em plena quinta-feira, debaixo do sol abrasador das 2 da tarde, a rua em frente ao nosso escritório é invadida por um grupo de mulheres e homens que, numa roda, dançam a “gerba”, ao som de uma banda estridente. A música tem um ritmo óptimo, bastante indiano (e muito pouco bollywoodesco).


A dança é feita em volta de um mercedes cinzento, enfeitado com uma gorda cobra feita de flores que vai desde a mala até ao capot. Os foguetes são acesos de dois em dois minutos, enchendo a rua de fumo.
Dou dois passos atrás e ponho um ar preocupado, quando reparo num homem de óculos escuros, que se coloca ao lado do carro, segurando uma espingarda enorme. Mais uma vez, sou a única com cara de preocupação. Quando os meus colegas param de rir, explicam-me que é uma pistola de pressão de ar. Mesmo assim, nunca fiando...

Uns momentos depois, sai de dentro do carro um noivo de fato cinzento brilhante, a destilar gotas de suor, visíveis até à distância a que estou. Mas nem com o noivo fora do carro a dança pára. A música continua, o cantor agarra o microfone e os altifalantes, maiores que eu, continuam a debitar o mesmo ritmo. Uns momentos mais tarde, desaparecem todos. Quando saio do escritório às seis da tarde, as bancas de fruta e legumes ocupam os seus lugares de sempre, guardadas pelos vendedores habituais. A única prova das festividades são os confetis coloridos que jazem no chão.

Casamento n.º2

Começo a perceber que aqui há tantos tipos de casamento, como tamanhos de bolsas. O da última quarta-feira foi em grande. E teve o desafio acrescentado de eu estar com um grupo de pessoas no qual ninguém falava inglês. Foi um arranhar de línguas a noite toda. Começamos pela necessária separação dos sexos. O marido da minha chefe foi buscar-me a casa e levou-me até casa da prima dele. Depois desapareceu para ir ter com os outros machos. Estive umas horas rodeada de mulheres, que vestiam saris super trabalhados, brincos dourados enormes e colares com medalhões de ouro que mais pareciam pratos de sobremesa.

Terminadas as preparações, entramos num carro (só o condutor era homem) e atravessamos toda a cidade, até à zona das “quintas” dos casamentos. Estes espaços a que eles chamam quintas, são uns relvados, maiores que um campo de futebol, rodeados de holofotes. Quando entramos, reparo num palco gigantesco do lado esquerdo, coberto com lençóis brancos, flores de todas as cores e holofotes rosa choque e azuis. Em frente ao palco está um mar de cadeiras brancas com laços cor de rosa nas costas e pequenos sofás azuis.

Sentamo-nos à espera. Na outra metade do relvado estão montadas mesas enormes com comida. Os homens comem (primeiro, claro está) no lado direito e as mulheres ficam na área à esquerda. Só volto a ver os “nossos” homens quando três horas depois nos encontramos à porta para ir para casa. Entretanto, o palco enche-se com uma fila de homens e mulheres vestidos com roupas carregadas de brilhantes, lantejolas e vidrinhos. O casamento é de dois casais em simultâneo. No palco estão os noivos (e as noivas), os pais e as irmãs. Os convidados vão subindo ao palco, para cumprimentar todos os alinhados e entregar umas flores que nos dão quando subimos as escadas. Estão presentes perto de mil pessoas, portanto esta operação demora umas horas. Para passar o tempo e esperar a nossa vez, vamos comer umas entradas.

Depois sentamo-nos nos sofázinhos, a comer pipocas e a olhar o desfile de apertos de mão no palco. As minhas acompanhantes riem-se da minha boca aberta, a tentar perceber o que se passa. Estou sempre à espera de alguma cerimónia religiosa, mas esta parte da festa consiste apenas nisto. Nós observamos. Numa parte do relvado, ao lado da atracção principal, está montado um pequeno palco, onde um homem de rabo de cavalo, fato preto e t-shirt branca vai cantando e apresentando outros cantores convidados e uma bailarina que dança com muito pouca graça. As danças indianas perdem-se muito nas influências dos filmes de bollywood. Os bailarinos parece que imitam uma Britney Spears com epilepsia.

Como atracção de circo que sou nestas paragens, tenho direito a subir ao palco duas vezes. No primeiro desfile tiro uma foto com o pai de um dos noivos (que pelos vistos já conheci anteriormente) e ofereço uma flores que não trouxe aos casais. Da segunda vez, em completo modo estrela de cinema, poso para a câmara com os dois casais, a oferecer mais flores que não comprei. Dá para falar um bocadinho com um dos noivos, que sabe inglês e que faz o mesmo ar de completo desconhecimento quando lhe digo que venho de Portugal. A “festa” dura exactamente três horas. Eu gostava de saber mais (se houve cerimónia religiosa antes por exemplo), mas o meu gujarati não dá para tanto.

quarta-feira, 18 de fevereiro de 2009

Extremos

Hoje vou a um casamento (sim, estamos em plena marriage season e há vários casamentos todos os dias e todas as noites. Até Março ninguém vai dormir antes da 1 da manhã, que é quando a música pára).

Amanhã vou a uma favela.

Em Fila Indiana no Matosinhos Hoje

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